segunda-feira, fevereiro 20, 2012

Limpeza de rios resolveria falta de água em SP

por: ALEXANDRE GONÇALVES


















Fonte: Sos Rios do Brasil/ Encontro dos Rios Tietê e Pinheiros - SP


Ambiente 

Concentração de matéria orgânica e variedade de resíduos alteram perfil de poluentes dos cursos d'água; cientistas e Ministério Público de São Paulo destacam a necessidade de métodos mais precisos e frequentes para aferir degradação.

 Os Rios Tietê e Pinheiros possuem perfis de poluição distintos e mereceriam planos de despoluição que refletissem essas diferenças. É o que mostra a análise mais minuciosa já realizada até hoje sobre a qualidade dos dois cursos d'água que cortam a maior metrópole da América Latina.

O trabalho mostrou também que o principal problema para os dois rios não é a poluição difusa - que vem dos dejetos levados ao leito pela chuva, uma responsabilidade da Prefeitura -, mas o esgoto doméstico e industrial, cuja coleta, na maioria das cidades da Grande São Paulo, caberia à Sabesp, empresa mista que tem como principal acionista o governo estadual.


"A concentração de hidrocarbonetos na água (algo que pode ser creditado à omissão da Prefeitura) é ínfima quando comparada à presença de substâncias oriundas do esgoto (que deveria ser tratado pela Sabesp)", pondera o promotor e coautor do estudo, José Eduardo Lutti, do Ministério Público de São Paulo (MPE). Ao todo, 33 bairros ainda despejam parte do seu esgoto no Tietê.


Diferenças 


O estudo, que rendeu a publicação de um artigo na última edição dos Anais da Academia Brasileira de Ciências, revelou seis substâncias que só foram encontradas nas águas do Pinheiros. Todas são compostos orgânicos. Duas delas atuam como pesticidas: o Aldrin-Dieldrin e o 4,4-DDD. Como o rio não atravessa áreas agrícolas, autores sugerem que tais produtos são usados nas margens para diminuir a infestação de mosquitos que infernizam vizinhos do curso d'água. 

Outra exclusividade digna de nota no Pinheiros é o hexaclorobutadieno, um composto cancerígeno eliminado por fábricas que utilizam ácido clorídrico nos seus processos industriais.
Já o Tietê apresenta 11 substâncias que não foram encontradas no Pinheiros. "Mas o que mais surpreende é o impacto dos efluentes domésticos, maior no Tietê", afirma Davi Cunha, da Escola de Engenharia de São Carlos (USP), sublinhando as altas concentrações de detergente e nitrogênio amoniacal na água.


Precisão


 A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) realiza medições bimestrais nos sete pontos de amostra dos rios na cidade de São Paulo. Nove variáveis - como turbidez e coliformes fecais - entram no cálculo do Índice de Qualidade das Águas (IQA) divulgado pelo órgão, responsável pela qualificação da água em péssima, ruim, regular, boa e ótima. A Cetesb investiga outras 32 variáveis que não integram o IQA. 


Doron Grull, do Centro de Apoio à Faculdade de Saúde Pública da USP, afirma que análises mais minuciosas e transparentes seriam desejáveis. "A análise de mais variáveis e com uma frequência maior facilitaria a descoberta de infratores", afirma Grull. "Se você encontra uma substância relacionada a um processo industrial concreto, pode chegar às empresas suspeitas de eliminá-la na rede."
Ao Estado, a Cetesb respondeu que considera o método usado "suficiente para o monitoramento da qualidade das águas dos Rios Tietê e Pinheiros".

Limpeza de rio resolveria falta de água em SP

Os dados utilizados pelos pesquisadores foram coletados entre agosto de 2007 e dezembro de 2008, no contexto de um acordo do Ministério Público de São Paulo (MPE) com a Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae). A Emae cogitava reverter as águas do Pinheiros para alimentar a Represa Billings com as águas do Tietê e, assim, aumentar a geração de energia na usina Henry Borden.


A Constituição paulista proíbe a reversão - exceto em casos de enchente na capital -, pois ela pode deteriorar a qualidade da água na represa vizinha, a Guarapiranga, que abastece a cidade.
O MPE aceitou testar um sistema de flotação que dava esperanças de garantir uma qualidade mínima à água que viabilizasse a reversão. Em troca, exigiu a análise minuciosa dos dois rios.
A atual gestão do governo do Estado abandonou a ideia da reversão, mas os autores do estudo argumentam que ela poderia ser oportuna se a despoluição do Rio Tietê avançasse. "Dessa forma, aumentaríamos a disponibilidade de água em um manancial dentro da capital", afirma Doron Grull, da Faculdade de Saúde Pública da USP.


"E não seria preciso realizar obras caríssimas para trazer água de bacias que estão a 300 quilômetros da capital", completa o promotor José Eduardo Lutti, do MPE.
A Sabesp não respondeu às perguntas sobre a conveniência de se realizar a reversão para evitar gastos com a captação de água longe da capital.

Promotor quer processar Sabesp por falta de ação

"Os resultados do Projeto Tietê (para despoluição do rio) são pífios, levando-se em conta o dinheiro investido nessa iniciativa (cerca de R$ 2,65 bilhões)", afirma sem rodeios José Eduardo Lutti, primeiro promotor de Justiça do Meio Ambiente do Ministério Público de São Paulo. Pedro Mancuso, da Faculdade de Saúde Pública da USP, coautor do estudo, também concorda que os resultados ainda são tímidos.


A Cetesb atesta que, desde 2005, dos 13 pontos de amostragem no Tietê e no Pinheiros, só foi identificada uma tendência de melhora - do nível péssimo para o ruim - na Ponte das Bandeiras, atribuída "aos investimentos em saneamento".
A Sabesp, responsável pelo projeto, cita um estudo da Fundação SOS Mata Atlântica para afirmar que a mancha de poluição recuou 160 quilômetros desde o início do projeto.


Mas Lutti não está satisfeito. "Por três anos, tentei firmar um Termo de Ajustamento de Conduta com a Sabesp para garantir 100% de coleta de esgoto até 2020. No fim do ano passado, disseram que não vão assinar", afirma. O promotor já solicitou documentos para entrar com uma ação contra a Sabesp. Quer descobrir como foi gasto o dinheiro e apurar eventuais omissões. Ele prevê uma penalidade de, ao menos, R$ 5 bilhões para a empresa.


Questionada pelo Estado sobre a ação, a Sabesp respondeu recordando que "o Projeto Tietê é uma iniciativa premiada: foi reconhecido pelo BID e pela Fundação Femsa, graças aos avanços alcançados". 


fontes: OESP, 12/02/2012, Vida, p. A25
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,rios-tiete-e-pinheiros-tem-tipos-de-poluicao-diferentes-mostra-estudo-,834667,0.htm
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,limpeza-de-rio-resolveria-falta-de-agua-em-sp-,834676,0.htm
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,promotor-quer-processar-sabesp-por-falta-de-acao-,834672,0.htm

Postar um comentário